Hospital Santa Rita
Pensei que nunca mais a veria, mais lá estava ela, os traços do rosto, a pele lisa, os olhos atentos
e assustados. Só havia um problema... A mulher que sempre vejo ainda não era ela...
- Doutor?
Desviei os olhos dela, e me dirigi à recepção, onde uma senhora de aparência de uns 40 anos me chamava.
-Sim... Qual o problema?-perguntei gesticulando meu olhar a ela novamente
-os pais estão preocupados, a menina não dorme e nem deixa eles dormirem. Já faz um tempo que
o Doutor Rafael tem indo há casa da menina... Mais parece que hoje eles preferiram vir pessoalmente –
ela parou de falar e me entregou uma pasta.
Abri a pasta e vi que eram fichas.
-Peça para que entrem – eu disse com os olhos ainda nas fichas.
Virei-me e sai andando ate minha sala, no caminho fui lendo as fichas.
NOME: Sthefany Starlet Enderson
Entrei na minha sala e me sentei na cadeira ainda com as fichas em mãos.
NOME DA MÃE: Neyde Reis Enderson
NOME DO PAI: Eduardo Enderson
Data de nasc:25/julho/1995
Então pelas minhas contas ela deve estar com 6 anos, em qualquer lugar me chamariam de papa anjo ou...
- Com licença – disse alguém batendo na porta
- Claro – eu disse fechando a ficha rapidamente e me levantei - Entre!
Uma mulher entrou cabelos curtos e castanhos, olhos castanhos claro, alta e magra, com a aparência de uns
28 anos. Ela estendeu a mão pra mim e disse:
-Meu nome é Neyde Reis Enderson
- É um prazer, sou o doutor Adan – eu disse retribuindo o aperto de mão – sente - se, por favor- disse indicando
uma das cadeiras do outro lado da minha mesa.
Ao lado dela , uma garotinha, na verdade eu ate poderia dizer a garotinha , com o mesmo olhar assustado que
ela estava na recepção , nas sua mãos um urso de pelúcia branco , que cobria quase todo seu rostinho ,
mostrando apenas os olhos castanhos claríssimos.
- E quem é você?- perguntei ainda olhando pra ela.
Ela se encolheu mais ainda atrás do urso , e devagar apontou para os papeis em cima da minha mesa, onde estava as fichas .
Eu ri.
- Sthefany!- a mãe dela ha chamou a atenção – Me desculpe... ela é assim mesmo- ela disse ainda olhando pra filha.
- Não se preocupe- disse- Você é muito esperta Sthefany- disse olhando pra ela - Bom... o que a pequena Sthefany tem?
A Dona Neyde se sentou em uma das cadeiras, a pequenina ficou atrás da cadeira da mãe com o urso ainda cobrindo grande parte do rosto, com os olhos fixos em mim.
- O Doutor Rafael é quem estava cuidando disso... - a Dona Neyde começou.
- Não sou tão novo quanto aparento- eu disse ha interrompendo.
Ela balançou a cabeça sem graça, depois afirmando, e continuou:
- Ela teve outro sonho...
-Sonho?- a interrompi
- É... sonhos...já faz algumas semanas que ela não anda dormindo direito...algumas vezes ela diz sentir dores , e ate já desmaiou.
Eu voltei há olhar para a Sthefany que ainda estava encolhida atraz da cadeira , os olhos ainda atentos e assustados, percebi que ela estava pálida, talvez pelo fato de não estar dormindo.
- Sthefany poderia se sentar ali - eu disse apontando pra maca
Ela olhou pra mim, depois pra mãe que balançou a cabeça positivamente, ela se virou e andou ate a maca, jogou o ursinho primeiro
, depois subiu os três degraus se sentou e puxou o ursinho pro colo e olhou pra mim de novo com o urso cobrindo o rosto.
Voltei a olhar pra mãe dela e disse :
- A senhora já procurou algum psiquiatra?
- Não... bom... na verdade minha irmã é psiquiatra.- ela respondeu
-Ela não vai dizer nada pra alguém da família –disse- Ela já lhe contou algum sonho ?
- Já tentou... mais a maioria das vezes ela acorda assustada e não diz coisa com coisa.
- Tudo bem ...- eu disse me levantando- Vamos ver.
Andei ate a maca onde a Sthefany estava sentada, ela se encolheu mais ainda com a minha aproximidade.
-Ei calminha eu só quero ouvir seu coração , posso? – eu disse
Ela balançou a cabeça afirmado .
Tirei o estetoscópio do pescoço ,e pus no eu ouvido.
- Quando eu pedir você respira fundo você respira , e quando eu pedir pra soltar você solta, ta bom?- eu disse pra ela
Pedi pra mãe dela ficar perto – ela ficou segurando o urso também. Ela estreme seu quando encostei o objeto em sua pele.
A batida do coração dela estava devagar – normal.
- Respira- pedi, ela respirou – Solta – pedi, ela soltou
tirei do ouvido o estetoscópio do ouvido e enrolei no pescoço de novo, e me sentei do lado dela.
- Então o que esta sentido?- perguntei pra ela.
Ela puxou o urso do braço da mãe e se encolheu de novo.Eu respirei fundo , aquilo não seria fácil.
- Tudo bem... Sthefany não vou poder te ajudar se você não falar- eu disse
Ela olhou pra mim, por um longo tempo que me fez me senti estranho, e culpado por me sentir assim com uma criança.
Me levantei passando a mão no rosto , e andei ate minha mesa novamente, a mãe dela veio atrás de mim e se sentou onde ela estava antes.
Abri uma das gavetas quem tem na mesa, e peguei um bloco de folhas pra marcação de exames e escrevi:
Psiquiatria
Sthefany Starlet Enderson
Assinei e arrastei a folha pra ponte da mesa ate a Neyde.
-Passa na recepção e já marca uma seção – eu disse
- Vem aqui Sthefy – ela chamou.
A Sthefany pulou da maca e andou ate a mesa.
- Conta pro doutor sobre seus sonhos
A menina olhou assustado pra mãe e pra mim.
- Dona Neyde , não podemos obrigá-la – eu disse
Ouvi-se um momento de silencio, Sthefany estava com a cabeça abaixada, Neyde olhava pra filha preocupada e suspirando fundo varias vezes.
- Sthefany vem cá- eu a chamei.
Ela deu a volta na mesa ate ficar de frente pra mim.
- Escuta, não precisa me contar, mais tenta não ficar pensando nisso, ta- eu disse batendo na cabeça dela com o dedo.
Ela olhou pra baixo, e derrepente começou a falar devagar com a voz fraca, ainda trocando algumas letras, por exemplo, o R pelo L.
- tinha uma luz folte muito folte- ela cobriu o rosto com as mãos – alguém guitando muito- ela ainda estava com as mãos no rosto quando começou a chorar.
Eu a abracei, sem muito o que dizer ela parecia muito assustada.
- Não quelo mais sonha – ela resmungou ainda em meus braços.
Eu queria tirar aquela dor de dentro dela, queria ajudá-la, mais era algo praticamente impossível , se eu fosse pai dela nunca deixaria um estranho se aproximar da minha filha . Mais eles mal sabiam que eu era a pessoa mais do que certa para ajudá-la.

Nenhum comentário:
Postar um comentário